


Pesquisa analisou os efeitos das inundações de 2024 no Rio Grande do Sul e estimou que 430 mil hectares de ecossistemas nativos foram atingidos
Um estudo desenvolvido pelo Laboratório de Biologia da Conservação da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Cerro Largo recebeu menção honrosa no Prêmio MapBiomas, na categoria Especial – Emergência Climática. O trabalho "When waters rise: Biodiversity potentially affected on a major flooding in Southern Brazil" analisou os impactos potenciais das inundações de maio de 2024 no Rio Grande do Sul sobre ecossistemas e a biodiversidade.
Coordenada pela professora Daniela Oliveira de Lima, da área de Ecologia e do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Tecnologias Sustentáveis (PPGATS) da UFFS, a pesquisa foi realizada em parceria com Fabrício Luiz Skupien, Alonso Moscón e Marcelo de Moraes Weber. Fabrício é egresso de Ciências Biológicas da UFFS – Campus Cerro Largo e Alonso é egresso do PPGATS. Marcelo é professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Campus Palmeira das Missões. O artigo foi publicado em 2025 na revista científica Perspectives in Ecology and Conservation.
Para dimensionar os efeitos da inundação, os pesquisadores cruzaram mapas das áreas alagadas com diferentes bases de dados geográficos. Os pesquisadores utilizaram dados de uso e cobertura da terra do MapBiomas, que é uma rede colaborativa que reúne universidades, organizações da sociedade civil e empresas de tecnologia para produzir dados e informações sobre as transformações do território brasileiro, incluindo mudanças no uso e na cobertura da terra. A análise também considerou Áreas de Preservação Permanente (APPs), Unidades de Conservação e mapas de distribuição de anfíbios, répteis, aves e mamíferos.
Os resultados mostram que cerca de 4,3 mil km² (430mil hectares) de ecossistemas nativos foram inundados pelos eventos climáticos de 2024 no Rio Grande do Sul, entre eles aproximadamente 1,2 mil km² de florestas e 1,02 mil km² de campos nativos. Também foram atingidos cerca de 825 km² de Unidades de Conservação (cerca de 21% da área total protegida) e mais de 1,4 mil km² de APPs. Um dos dados que chama atenção é a situação dessas áreas de preservação: entre as APPs atingidas, 67% já estavam sem vegetação nativa antes da inundação.
Daniela explica que "compreender esses impactos é fundamental porque os ecossistemas, que são redes de interações entre organismos vivos e o meio ambiente — e a biodiversidade (a variedade de formas de vida que compõem esses ecossistemas) prestam serviços essenciais para a manutenção da vida e a resiliência climática. Quando áreas naturais são severamente afetadas, perde-se o equilíbrio ecológico e a capacidade de amortecer o impacto de desastres climáticos futuros".
A pesquisa estimou ainda que 747 espécies de tetrápodes tiveram suas áreas de distribuição potencialmente afetadas: 74 anfíbios, 88 répteis, 461 aves e 124 mamíferos. O número representa mais de 85% das espécies desses grupos presentes na região analisada. Entre elas, 84 espécies já estão ameaçadas de extinção. "É importante destacar que o nosso estudo apresenta uma estimativa espacial dos impactos potenciais da inundação sobre os habitats, e não uma contabilização direta da mortalidade de animais. Trabalhos a campo para verificar in loco a situação da biodiversidade continuam sendo necessários", esclarece a professora Daniela.
Um dos principais achados é que a inundação não atingiu todas as espécies da mesma forma. “Os dados apontaram que, em média, as espécies ameaçadas tiveram uma proporção de sua distribuição afetada duas vezes maior do que as não ameaçadas. Anfíbios e répteis também aparecem entre os grupos mais vulneráveis, especialmente em razão da menor mobilidade e das características de seus habitats. A espécie com maior proporção de sua distribuição atingida foi o lagarto-das-dunas Liolaemus arambarensis, a espécie já está ameaçada de extinção e teve cerca de 25% de sua área de distribuição alagada”, detalha a pesquisadora.
Daniela ainda comenta que os resultados revelam que a conservação e a restauração da vegetação nativa não são apenas questões ambientais isoladas, mas sim a base para a adaptação climática dos territórios. "Esses dados mostram que a degradação prévia — como vimos no alto índice de APPs sem vegetação — amplia drasticamente a vulnerabilidade ecológica. Esperamos que essas evidências sirvam de base para gestores públicos formularem políticas de restauração de áreas degradadas e fortalecimento de unidades de conservação, tornando a região mais resiliente a eventos climáticos extremos", finaliza.
O Prêmio MapBiomas reconhece estudos e iniciativas que utilizam dados produzidos pela rede para conservação, manejo sustentável e enfrentamento das mudanças climáticas. A edição em que o estudo foi reconhecido contou com categorias como Geral, Jovem, Políticas Públicas, Negócios, Escolas, Combate ao Desmatamento, Emergência Climática e Povos e Comunidades Tradicionais. ,
A categoria de Emergência Climática, na qual a pesquisa da professora Daniela foi premiada, contempla trabalhos que utilizam dados do MapBiomas relacionados à mitigação e à adaptação às mudanças climáticas. A premiação foi realizada no dia 07 de julho, em São Paulo.