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Publicado em 11/03/2026 14:54:34 • Educação

Primeiro estudante indígena conclui graduação na UFFS

Marcivaldo é da etnia Tuyuca, da comunidade indígena de Taracuá-Rio Uaupés, Amazonas
Marcivaldo concluiu o curso de graduação em Administração (Foto: Divulgação)

No dia 24 de fevereiro, no Auditório da Unidade Seminário da UFFS, ocorreu a solenidade de colação de grau em gabinete de estudantes dos cursos de graduação em Administração, Engenharia Ambiental e Sanitária, Ciências Biológicas, Letras Português e Espanhol e Química.

Entre os formandos, esteve Marcivaldo Cardoso Lopes: o primeiro estudante indígena a concluir o percurso formativo da graduação no Campus Cerro Largo (UFFS), curso de Administração.

A UFFS, desde 2012, possibilita aos estudantes indígenas o acesso à graduação via Processo Seletivo Exclusivo para Acesso e Permanência dos Povos Indígenas (PIN). 

Na avaliação do formando, o PIN foi importante para o seu ingresso e possibilitou o mínimo de segurança física e emocional para a permanência. Ele relata que para a dimensão ingresso, o PIN tem atendido muito bem aos seus objetivos. 

Para Angelise Fagundes da Silva, presidente do Programa de Línguas da UFFS (PROLIN), "a formatura do primeiro estudante indígena na UFFS - Campus Cerro Largo representa um marco importante para a universidade. Tal conquista evidencia o papel da instituição na ampliação do acesso ao ensino superior e na valorização da diversidade linguística e cultural que constitui o Brasil, compromisso que também se materializa em políticas institucionais como o PIN - Programa de Acesso e Permanência dos Povos Indígenas, voltado a garantir condições de ingresso, permanência e formação acadêmica para estudantes indígenas". 

O professor Edemar Rotta relata que "Marcivaldo, ao longo de todo o curso, foi um aluno exemplar. Muito atento a tudo, muito participativo, muito consciente do que estávamos trabalhando em aula. Tive a honra de ser escolhido como orientador de seu Trabalho de Conclusão de Curso; um trabalho dedicado a estudar a realidade vivenciada pelos alunos indígenas no Campus Cerro Largo".

 

Trajetória na UFFS-Cerro Largo

Marcivaldo nasceu no território indígena Alto Rio Negro, na cidade de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, próxima à fronteira com Colômbia e Venezuela, distante cerca de 3.200 km de Cerro Largo. Sua etnia é Tuyuka, da comunidade indígena de Taracuá-Rio Uaupés, integrada por diversos grupos, como os Tukanos, Piratapuias, Dessanos, Mirititapuias e Tarianos. 

Em 2022, ele foi aprovado no processo seletivo da UFFS; aos 33 anos começou seu percurso como aluno do curso de Administração no Campus Cerro Largo (UFFS). 

Seu nome indígena é Uhtãpirõporã, uma junção de três termos: Uhtã (que significa pedra), Pirõ (cobra) e Porã (filhos); assim, a tradução é 'Filho da Cobra de Pedra'. 

Ele escolheu o Campus Cerro Largo para fazer sua graduação, por ser uma cidade pequena e do interior; só não contava com os períodos intensos de frio, bem diferente do clima de sua cidade de origem. 

A busca pelo novo foi o que o motivou a sair de sua comunidade, ele relata que "sempre gostei do novo, seja em conhecimento e na forma de solucionar as coisas. Na minha percepção, o novo nos traz desafios, e os desafios nos fazem sentir vivos, o medo nos deixa estratégicos e nos prepara para lidarmos com qualquer coisa". 

Sua trajetória acadêmica esteve voltada para o contexto das minorias, por ter nascido em uma comunidade indígena, mas também aproveitou as diferentes abordagens possibilitadas pelo curso de graduação para serem adaptadas a sua realidade de origem. 

Ao longo dos quatro anos de graduação, ele teve a oportunidade de ser bolsista do Projeto de Monitoria por Público-Alvo, monitoria voltada para os estudantes indígenas e imigrantes, para ajudar nas dificuldades da vida acadêmica e integração em diversos espaços dessa caminhada, principalmente em relação ao fator permanência. Entre 2024 e 2025 integrou a diretoria da Empresa Júnior do Campus, a Integração Júnior, como Diretor-Presidente. Em 2025 foi bolsista do Projeto de Extensão "UFFS Sem Preconceito" e voluntário em Projeto de Extensão da Pós-Graduação.

Seu Trabalho de Conclusão de Curso teve como tema "A Política de cotas na graduação: acesso e permanência dos povos indígenas na Universidade Federal da Fronteira Sul - Campus Cerro Largo". A intenção foi buscar a percepção dos estudantes indígenas em relação à política de ações afirmativas implementadas pela UFFS, levantando dados para o aprimoramento das políticas de acesso e de permanência no Campus. Durante a pesquisa, muitos estudantes indígenas foram ouvidos para entender suas demandas, a fim de melhorar o serviço de assistência aos estudantes indígenas. A banca avaliadora do trabalho final foi composta pelo Prof. Dr. Edemar Rotta - Orientador, pela Profa. Dra. Maria Alice Canzi Ames - Coorientadora, e pelos avaliadores Prof. Dr. Ivann Carlos Lago e doutorando Luís Carlos Rossato. 

Marcivaldo seguirá estudando no Campus, pois está entre os selecionados para cursar o Mestrado em Desenvolvimento e Políticas Públicas, na turma de 2026. Segundo ele, "graças aos professores incríveis que eu tive na graduação, me senti encorajado para continuar os estudos na Pós-Graduação". No processo seletivo, ele participou com o pré-projeto intitulado "Do acesso à permanência: políticas de assistência estudantil para indígenas nas universidades federais da região sul do Brasil".

Para a professora Angelise Fagundes da Silva, "a presença de estudantes indígenas e de suas identidades no espaço universitário não apenas reafirma o compromisso com políticas de inclusão e permanência, mas também fortalece o reconhecimento das múltiplas línguas, saberes e modos de vida que compõem o tecido sociocultural brasileiro, contribuindo para uma formação acadêmica mais plural, intercultural e socialmente comprometida. De minha parte, como professora da UFFS e presidente do PROLIN, foi uma honra entregar o diploma ao Marcivaldo em momento tão significativo para todos nós".

Fonte: Assessoria de Comunicação UFFS Cerro Largo
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