

A melatonina ganhou fama de solução rápida para noites maldormidas. Vendida em cápsulas, gotas e outras apresentações, virou presença comum na rotina de quem busca regular o sono. Só há um detalhe importante: no Brasil, o produto é classificado como suplemento alimentar, não como medicamento para tratar insônia.
A substância imita um neuro-hormônio produzido naturalmente pelo organismo, principalmente pela glândula pineal. Sua produção aumenta à noite, em resposta à redução da luz, e ajuda a sincronizar o ciclo circadiano, espécie de relógio biológico responsável por organizar períodos de sono e vigília.
A versão sintética pode ser útil em situações específicas, sobretudo quando o problema envolve o horário do sono, mas não deve ser encarada como um remédio universal para dormir melhor.
A melatonina tem papel mais claro na regulação do ritmo circadiano. Pode ser considerada em situações como jet lag, atraso ou avanço da fase do sono e alguns transtornos associados a horários irregulares de repouso.
Também aparece entre as opções terapêuticas para o transtorno comportamental do sono REM, condição marcada por sonhos intensos, pesadelos e movimentos durante o sono.
Em crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista, estudos apontam benefício da melatonina para alterações do sono, especialmente quando medidas comportamentais não foram suficientes. A indicação deve partir de avaliação médica. No Brasil, porém, a melatonina não é autorizada pela Anvisa como suplemento alimentar para menores de 19 anos.
Para insônia, o cenário é diferente. A evidência disponível não sustenta o uso indiscriminado da melatonina como tratamento. Dificuldade persistente para dormir merece investigação da causa, em vez de simplesmente acrescentar um suplemento à rotina.
A melatonina é considerada segura para grande parte dos adultos saudáveis, mas continua sendo um hormônio com ação no organismo. Dose e horário de uso fazem diferença. A Anvisa recomenda que o limite máximo de consumo diário do suplemento seja de 0,21 mg.
Quantidades elevadas podem provocar dor de cabeça, tontura, náusea, alterações intestinais e sonolência durante o dia. Esse último efeito merece atenção especial para quem dirige ou realiza atividades capazes de exigir concentração.
Outro ponto envolve a qualidade dos suplementos. Diferentemente dos medicamentos, esses produtos seguem regras próprias de controle. A concentração real pode não corresponder perfeitamente ao valor informado no rótulo. A própria Anvisa recomenda orientação profissional, respeito à dose indicada e compra em estabelecimentos confiáveis.
A melatonina também pode interagir com medicamentos. Pessoas em tratamento contínuo devem conversar com o médico antes de iniciar o suplemento, principalmente diante do uso de remédios capazes de provocar sonolência ou alterar a coagulação.
Entre os medicamentos envolvidos em possíveis interações estão alguns antidepressivos, hipnóticos, benzodiazepínicos, anticoncepcionais, anti-hipertensivos, anti-histamínicos e anti-inflamatórios.
Quem usa anticoagulantes, como a varfarina, precisa de atenção especial. A melatonina pode interferir no controle da coagulação e exigir avaliação individual.
Doenças autoimunes, epilepsia e diabetes também pedem cautela. Nessas situações, cabe ao profissional avaliar riscos, benefícios e possíveis interações antes de indicar o produto.
No Brasil, os suplementos de melatonina de venda livre são autorizados apenas para adultos com 19 anos ou mais. Gestantes e lactantes não devem consumir o produto, já que a melatonina atravessa a barreira placentária e o leite materno e não existem estudos que garantam a segurança do bebê. Pessoas que tenham alergia à substância também não devem consumi-la.
A Anvisa também determina advertência para pessoas envolvidas em atividades capazes de exigir atenção constante.
A orientação vale também para quem tem alguma doença ou toma medicamentos. Nesses casos, a recomendação oficial é consultar um profissional de saúde antes do consumo.
Se você observa alterações no sono ou dificuldades para dormir a ponto de considerar tomar melatonina por contra própria, a melhor estratégia é levar essa queixa para um médico. Insônia pode estar associada a ansiedade, depressão, hábitos inadequados, uso de medicamentos, alterações do ritmo circadiano, apneia do sono e diversas outras condições.
A melatonina pode ter lugar em situações específicas e em dosagens individualizadas indicada pelo médico, mas não substitui a investigação da causa nem o tratamento adequado. No Brasil, sua autorização como suplemento não inclui indicação para tratar distúrbios do sono, humor ou concentração.