

Conhecida como cefaleia por uso excessivo de medicação, essa condição surge quando remédios indicados para o alívio imediato da dor passam a ser utilizados de forma recorrente
O uso frequente de analgésicos para aliviar dores de cabeça pode transformar as dores esporádicas em uma condição crônica. Especialistas alertam que o consumo excessivo desses medicamentos está diretamente associado ao agravamento da enxaqueca, criando um ciclo difícil de interromper e que impacta na qualidade de vida dos pacientes.
Conhecida como cefaleia por uso excessivo de medicação, essa condição surge quando remédios indicados para o alívio imediato da dor passam a ser utilizados de forma recorrente, muitas vezes por mais de três dias por semana. Com o passar do tempo, o cérebro se torna mais sensível aos estímulos de dor, reduzindo a eficácia dos próprios medicamentos e aumentando a frequência e a intensidade das crises de enxaqueca.
Essa conclusão está no Estudo Global da Carga de Doenças, Lesões e Fatores de Risco (GBD), publicado pelo The Lancet, que analisou dados de 1990 a 2023 sobre enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia associada ao uso excessivo de medicamentos.
De acordo com o levantamento, 2,9 bilhões de pessoas em todo o mundo conviviam com algum tipo de dor de cabeça em 2023, o que corresponde a 34,6% da população. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a enxaqueca está entre as principais causas de incapacidade no mundo, principalmente entre pessoas em idade produtiva.
O mecanismo por trás do agravamento da dor de cabeça esporádica para a enxaqueca envolve alterações nos sistemas de modulação da dor no cérebro. O uso repetido de substâncias analgésicas pode provocar mudanças neuroquímicas que facilitam a cronificação da enxaqueca, fazendo com que episódios antes esporádicos se tornem quase diários. Como resultado, muitos pacientes passam a depender cada vez mais da medicação, o que gera um ciclo de dor e consumo de medicamentos.
Para especialistas, o fácil acesso a medicamentos sem prescrição contribui diretamente para esse cenário. “Se o paciente começa a usar o remédio de crise com frequência e começa a ter na bolsa medicamento, isso é um sinal de alarme e ele provavelmente já está no uso excessivo de medicamentos”, diz Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP).
Ainda segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, existe uma frequência segura para o uso de analgésicos, mas esse uso não deve ultrapassar 15 dias ao mês.
"De forma geral, recomenda-se que analgésicos simples não sejam utilizados por mais de 10 a 15 dias no mês. Já medicamentos específicos para enxaqueca, como triptanos ou combinações analgésicas, devem ser usados com ainda mais cautela, idealmente em menos de 10 dias mensais. Ultrapassar esses limites aumenta significativamente o risco de desenvolver cefaleia por uso excessivo de medicação", acrescenta Ulysses Caús Batista, neurocirurgião e neurorradiologista intervencionista do grupo Kora Saúde.
Além da piora clínica, o uso excessivo de analgésicos também está associado a maior risco de efeitos colaterais, incluindo problemas gastrointestinais, renais e cardiovasculares, dependendo do tipo de medicamento utilizado e da duração do consumo.
Pessoas com crises frequentes de dor de cabeça devem buscar avaliação médica para diagnóstico adequado e definição de estratégias de tratamento preventivo. O acompanhamento profissional é importante para evitar a automedicação e reduzir o risco de evolução para formas crônicas da doença, que tendem a ser mais difíceis de controlar e mais limitantes no dia a dia.
"O tratamento é de acordo com o grau de doença do paciente e a retirada dos medicamentos é gradual. Geralmente usamos estratégia com equipe multiprofissional, fazemos o bloqueio de nevo ucraniano para aliviar essa dor. Quando a gente retira o uso desses medicamentos e importante que o paciente também receba apoio psicólogo, porque ele poderá ter sintomas de abstinência da retirada desses remédios e ter sintoma de dor, ansiedade, tremor e até mesmo febre. É igual os sintomas de retirada de qualquer outra substância", acrescenta Tiago.