

Síndrome da Disfunção Cognitiva, neoplasias e doenças articulares são comuns em pets idosos, que requerem cuidados e acompanhamento específicos para maior qualidade de vida e longevidade
Os pets estão vivendo cada vez mais e a expectativa de vida elevada está relacionada a diversos fatores. Um dos principais motivos para isso é a mudança no estilo de vida dos cães e gatos, gerada pela intensificação da relação ser humano-animal.
"Se há alguns anos atrás os cães eram animais de quintal e os gatos alternavam entre morar na casa e passar a noite na rua, hoje eles têm casa, comida e muitos mimos. O avanço das pesquisas na Medicina Veterinária e o acesso à informação também fez com que esses pets pudessem viver mais. Isso está relacionado às ferramentas de prevenção e até aos cuidados com a alimentação", explica a médica-veterinária pós-graduada em Clínica Médica de Pequenos Animais, Geriatria e Neonatologia Veterinária e 1ª tesoureira da Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária (SBGV), Fernanda Carolina Farias Bezerra.
No entanto, se por um lado a longevidade é positiva, por outro requer cuidados específicos, especialmente devido ao surgimento de doenças frequentes da idade avançada.
Dentre as afecções mais recorrentes da fase sênior está a Síndrome da Disfunção Cognitiva (SDCC) – conhecida popularmente como Alzheimer canino ou felino – responsável por causar degeneração cerebral exacerbada.
"A fisiopatologia da doença, apesar de muito estudada, ainda é incerta em muitos pontos. Nela podem ocorrer alterações orgânicas como alterações vasculares, dilatação dos ventrículos, áreas com cicatriz glial e espessamento meníngeo", afirma Gabriel Castanho, médico-veterinário pós-graduado em Neurologia Canina e Felina e em Geriatria e Neonatologia Veterinária e membro da Associação Brasileira de Neurologia Veterinária (ABNV).
Devido aos sinais clínicos semelhantes, a síndrome é comumente comparada ao Alzheimer em humanos. No entanto, as enfermidades apresentam algumas diferenças patológicas.
Gabriel explica que no Alzheimer há, principalmente, a ação de duas proteínas: beta-amiloide e tau. Ambas são proteínas proeminentes na doença e têm efeito neurotóxico.
"Na SDCC, assim como no Alzheimer, temos a presença das proteínas beta-amiloide no encéfalo do paciente. Porém, o que difere uma doença da outra é a ausência de acúmulo de proteínas tau nos animais. Uma das explicações para tal é a de que cães e gatos não vivem tempo suficiente a ponto dessas proteínas se tornarem prejudiciais", relata.
Por falar em idade, as manifestações clínicas da Síndrome da Disfunção Cognitiva costumam ocorrer em cães a partir dos nove anos e em felinos por volta dos 12 anos.
Estudos não apontam uma real predisposição racial nos animais que desenvolvem a doença. Geralmente, ela é observada com maior frequência em cães de pequeno porte e felinos, pois esses costumam ter uma sobrevida maior do que os cães de grande porte.
Logo, o especialista esclarece que a idade é o fator isolado mais importante para a SDCC, sendo ela um efeito da longevidade.
Além disso, um dos principais aspectos associados ao desenvolvimento da síndrome são as alterações gastrointestinais, devido ao eixo intestino-cérebro, e a presença de doenças metabólicas ou inflamações sistêmicas crônicas.
Outro fator é o status reprodutivo do paciente, ou seja, se ele é castrado ou não, que mesmo não sendo considerado determinante, é passível de influenciar no quadro.
Após a SDCC estabelecida, os animais passam a apresentar sinais clínicos relacionados a déficits cognitivos progressivos.
Dentre eles, estão desorientação, interação social diminuída, ciclo circadiano alterado (troca do dia pela noite), higiene pessoal reduzida, mudanças de atividade, ansiedade e déficit no nível de aprendizado.
"De maneira menos comum, podemos encontrar pacientes apresentando também crises epilépticas e sinais compatíveis com síndrome vestibular", relata.
Já o diagnóstico é feito através de anamnese, avaliação física neurológica e achados de exames de imagem avançados, como a ressonância magnética.
O especialista comenta que o principal objetivo de qualquer tratamento ou controle para um paciente neurológico é a qualidade e expectativa de vida.
"Hoje sabemos que a doença não tem cura, assim como o Alzheimer. Com isso, o controle ambiental e medicações para manejo da sintomatologia clínica, na maioria do caso, traz qualidade de vida para o animal e para os responsáveis", declara.
Dessa forma, a linha de terapia integrativa adjuvante ao controle medicamentoso, normalmente, garante bons resultados.
"Antioxidantes naturais, como ômega-3, probióticos para melhora da saúde intestinal e melatonina em casos de alteração no ciclo circadiano, são exemplos de linhas de suplementos indicados na maioria dos pacientes. Sabemos que a suplementação dificilmente vai substituir o controle medicamentoso, porém é uma alternativa importante para caminhar lado a lado", explica.