

Dermatologistas explicam que atividades físicas de alto rendimento podem estar associadas a mudanças nos traços faciais
A teoria de que, com o passar do tempo, atletas de corrida desenvolvem um rosto mais envelhecido – com ossos aparentes, olheiras profundas, rugas e flacidez – tem ganhado espaço nas redes sociais. Apesar de não haver evidências científicas que comprovem uma relação direta, dermatologistas explicam que atividades físicas de alto rendimento podem impactar a aparência facial.
O fenômeno foi apelidado de runner’s face ("rosto de corredor", em tradução livre) e costuma ser associado a pessoas que mantêm alto volume de treinos, tanto em tempo quanto em distância, ao longo da semana.
A dermatologista Fernanda Mattias conta que dúvidas e queixas sobre essa hipótese são frequentes no consultório e geram debates entre corredores e profissionais da saúde na internet: "Existe essa teoria, sobre a runner’s face, como todo mundo fala, mas não é uma condição médica reconhecida ou um diagnóstico dermatológico. Essa ideia surgiu, principalmente, porque esses atletas costumam ter um percentual de gordura muito baixo, o que deixa o rosto com essa aparência mais magra que muitos destacam por parecer 'cadavérico'".
Segundo a especialista, o corpo humano concentra gordura em diversas regiões, inclusive no rosto, onde é distribuída em áreas como as bochechas, têmporas, ao redor dos olhos e da mandíbula. Essa gordura facial funciona como uma espécie de "preenchimento natural", ajudando a sustentar a pele e suavizar contornos.
Em corridas de longa distância, o corpo passa a utilizar com mais frequência as reservas de energia, o que inclui a gordura corporal. Esse processo pode deixar os traços do rosto mais marcados, com maior evidência óssea – ou ossos saltados, como é chamado popularmente – e perda de volume em áreas como bochechas e região ao redor dos olhos.
"O exercício físico regular está associado a um envelhecimento mais saudável e não o contrário. Pensando na aparência facial, a prática pode impactar negativamente quando a pessoa faz um déficit calórico muito extremo, tem problemas de desidratação ou um percentual de gordura muito baixo. Para mulheres, o saudável é ter entre 21% e 31% de gordura. Então abaixo de 18% poderia causar isso", acrescenta Fernanda.
Além da redução no percentual de gordura do corpo, outros fatores também podem influenciar a aparência associada ao chamado runner’s face. A desidratação provocada pela perda de líquidos e eletrólitos pelo suor, por exemplo, pode acentuar linhas de expressão e dar um aspecto mais cansado à pele. O impacto repetitivo da corrida também pode contribuir para o desgaste cutâneo.
"O que pode acontecer, também, é que as pessoas que correm acabam ficando mais tempo expostas ao sol. Esse dano solar pode ser um fator que acelera o envelhecimento da pele e dá essa aparência", acrescenta a dermatologista Laura Mota.
A especialista garante que esses efeitos negativos são preveníveis. Algumas dicas são evitar a prática de exercícios físicos entre 10h e 16h, passar protetor solar e investir em barreiras físicas, como bonés, viseiras e óculos de sol próprios para a atividade. Em corridas mais longas, como de 21km ou mais, por exemplo, é necessário reaplicar o filtro solar para garantir uma proteção duradoura.
Com esses cuidados, Laura alerta: "Não significa, necessariamente, que correr causa rugas ou envelhece. A corrida, e outros exercícios físicos, causam muitos efeitos positivos na saúde da pele".
Ela se refere ao aumento da circulação sanguínea, que leva mais oxigênio e nutrientes para a pele, a redução dos níveis de cortisol (hormônio que, em excesso, é associado ao envelhecimento precoce) e o estímulo indireto à produção de colágeno, já que a prática regular de exercícios pode melhorar o metabolismo e o funcionamento do organismo.
As médicas destacam que esse efeito não é exclusivo da corrida. Outras atividades físicas intensas ou praticadas com alta frequência também podem levar à redução de volume facial, a marcação de rugas e a mudanças na aparência da pele.
"As linhas de expressão surgem justamente pela repetição de movimentos na pele. Fazer cara de bravo todos os dias ou fazer careta ao pegar muito peso na academia ou no crossfit, por exemplo, pode contribuir para aquela ruga ficar mais profunda e evidente. O botox serve justamente para isso, para tentar paralisar ou diminuir a força dessa musculatura e fazer com que não marque tanto a pele", defende Fernanda.