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Publicado em 23/06/2026 14:36:53 • Saúde

IA detecta ceratocone antes dos sintomas

Saiba como algoritmos identificam sinais iniciais da doença
Imagem meramente ilustrativa (Foto: Canva)

No Junho Violeta, saiba como algoritmos identificam sinais iniciais do ceratocone e por que o diagnóstico precoce pode evitar tratamentos mais complexos

Estamos no mês do "Junho Violeta", campanha nacional criada em 2018 pela Sociedade Brasileira de Oftalmologia para alertar sobre o ceratocone, doença que afina e deforma a córnea (a lente que fica na parte da frente dos nossos olhos) e está entre as principais causas de transplante no país, atingindo cerca de 150 mil brasileiros por ano. A mensagem central é o diagnóstico precoce, e a inteligência artificial, em pouco tempo, vai conseguir detectar o ceratocone antes de o paciente sentir qualquer sintoma.

Parece contraditório: como alguém com ceratocone pode enxergar bem e não saber da doença?

 

Quando a doença ainda não dá sinais

Existe uma fase anterior aos sintomas, chamada ceratocone subclínico. Nela, a curvatura da frente da córnea ainda está normal, então a topografia tradicional não acusa nada e o exame clínico também não mostra sinal nenhum. As primeiras alterações costumam surgir na superfície posterior da córnea e nos mapas de espessura, visíveis apenas em exames mais sofisticados.

Um detalhe importante: o ceratocone é, por definição, bilateral e assimétrico. É comum haver doença avançada em um olho e visão normal no outro, em uma córnea "aparentemente" normal que, na verdade, já tem um ceratocone que ainda não evoluiu. São nesses olhos de "forma frustra" que os pesquisadores procuram indícios para descobrir a doença cedo. Afinal, é um olho que tem a doença, mas não a manifesta. Ideal para procurar pistas.

 

Como a IA enxerga o invisível?

Um exame de tomografia gera milhares de dados: elevação anterior e posterior, espessura, curvatura e biomecânica. Os algoritmos analisam centenas a milhares desses pontos de uma vez, comparando-os com grandes bancos de dados e captando combinações sutis que escapam ao olho humano. Hoje, sistemas de IA já atingem sensibilidade acima de 98% para o ceratocone instalado. Para a forma subclínica, essa sensibilidade ainda é de apenas 90%, mas tem melhorado consistentemente a cada ano.

Por que tanta pressa? Porque o crosslinking de colágeno (único tratamento capaz de travar a progressão do ceratocone) estabiliza a córnea como ela está, mas não desfaz o que já se deformou. Estudos mostram que ele impede a progressão em 85% a 95% dos casos, com benefício maior nos mais jovens, a faixa de maior risco, pois a córnea é mais maleável e a doença evolui mais rápido.

Diagnosticar na fase subclínica permite agir antes que a visão seja prejudicada, evitando lentes especiais, anel intracorneano ou transplante.

 

No futuro próximo

A união dos exames de córnea de alta resolução com a IA vai nos auxiliar cada vez mais na detecção precoce. O alvo natural são adolescentes e jovens adultos, quando a doença começa.

Essa triagem também é indispensável antes de cirurgias refrativas a laser. Ceratocone é uma contraindicação para essas cirurgias, mas os casos subclínicos ainda são um desafio.

Além disso, a IA já mira além do diagnóstico: modelos em desenvolvimento buscam prever quais córneas vão progredir e estimar a resposta ao crosslinking antes da cirurgia. E aplicativos que captam e interpretam imagens do olho pelo celular podem levar o rastreamento aonde não há tomógrafo.

Vale sempre lembrar que a IA não substitui o médico. Ela aponta sutilezas, mas, com evidência ainda de baixa certeza para a fase subclínica, a decisão continua sendo clínica.

A boa notícia do "Junho Violeta" é que as principais defesas seguem ao alcance de todos: consulta oftalmológica ao menos uma vez por ano, atenção ao grau que muda com frequência e o hábito de não coçar os olhos. E, cada vez mais, com um reforço tecnológico, importante sobretudo para os mais jovens.



(*) Texto escrito pelo oftalmologista Hallim Féres Neto (CRMSP117127 | RQE60732), membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia

Fonte: Hallim Féres Neto / CNN Saúde
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